Entrevista | Blog Só para mocinhos

1. O que podemos saber sobre o escritor de “Mentiras Sobre O Travesseiro”?

Sou um cara reservado, pratico e observador. Desde pequeno sempre fui criativo. Me envolvia nas atividades de adulto e quando menos esperava estava com responsabilidades aquém do que eu poderia lidar. Participei do jornal da escola, fui presidente de grêmio estudantil, participei de fas clubes, ajudava numa rádio comunitária, tendo um programa num horário em que quase ninguém ouvia. Comecei a trabalhar cedo. Sempre me destacava pela minha forma nada tradicional de pensar. Para mim as coisas tinham que fazer sentido sempre. Às vezes isso era aceito bem, às vezes incomodava. Ao mesmo tempo que eu gostava de rotina detestava fazer a mesma coisa sempre. Um total paradoxo na minha infância.

2. De onde surgiu a idéia de escrever o livro?

Comecei a escrever este livro em meados de junho de 2009. No fundo, tudo começou com um texto de e-mail, que tinha escrito, após um “quase” acidente que vivi chegando ao trabalho. Me recordo, que quando me sentei no local que ocupava para desenvolver minhas atividades, ainda estava apático. A única coisa que fiz, foi escrever para desabafar e contar a alguém o que me tinha acontecido. Mas as demandas do dia, me tomaram, e o e-mail, não chegou a ser enviado para ninguém. Meses depois, visitando a pasta rascunho do meu outlook – programa de correio eletrônico do Windows, achei o texto. Na hora, chovia, típica chuva de inverno. No trabalho eu me sentava próximo a uma grande janela – janela que me inspirou a construir o cenário do apartamento em que o personagem Pedro se muda no capítulo final. Sentado ali, eu via a água escorrer pelo vidro da janela e cada gota me inspirava. Posso dizer que tudo começou ali… Abri o e-mail, e quando li senti um arrepio, aquele texto havia mexido comigo. Ao ler vivenciei tudo novamente, cada segundo passou novamente pela minha cabeça. Acredito, que algo me dizia que não era um simples descuido atravessar a rua distraído. Naquele momento, eu percebi que faltava descrever mais coisas para fazerem algum sentido. E comecei a melhorar o primário texto. Mas o tema principal – a mentira, só veio ao longo do trabalho. Quis trabalhar muito a consciência dos personagens durante suas fases.

3. Muitos livros de temática costumam abordar o assunto numa fase de descoberta, conflitos adolescentes e familiares, já em MSOT a temática aborda a construção de um relacionamento serio e maduro entre dois homens. Por que essa escolha?

Não sou um cara que leu muitos livros temáticos gays, acho que nunca li um para ser sincero. Assisti a alguns filmes, peças de teatro, mas nada muito ligado a algum livro. Meu intuito nunca foi intitular o que eu escrevia como gay. Na verdade acho que não há necessidade disto. Se eu fizesse, talvez estaria reforçando algum estereótipo. A idéia de MSOT, é trazer o ponto – relacionamento. E através dele a discussão da verdade, tão fora de moda nos tempos atuais. No momento em que vivemos, as relações, em sua grande maioria são superficiais, duram o mesmo tempo em que fechamos o xis de uma janela do msn.

4. É impossível não se identificar com algumas características dos personagens principais (Pedro e Marcos). Como se deu a construção dos mesmos? Houve alguma pesquisa, inspiração?

Abordar dois personagens complexos como Pedro, Marcos, e ainda Caio, Ricardo, Leonardo… não foi um trabalho fácil. Eu sempre soube muito bem quem eram os dois personagens principais e para onde a história caminharia com eles – já tenho isto escrito até o terceiro livro. Mas a dúvida era: Como transformar isso em algo rico de detalhes sem parecer que eu estivesse tomando partido para algum deles. Eu passei muito tempo observando as pessoas em boates, em festas, num ponto de ônibus, em conversas na internet. Para mim, extrair cada detalhe do papo ou do gesticular era o principal, não queria a histórias delas, não sei copiar dramas alheios. Marcos foi o personagem mais complexo, porque não considero o vilão da história e nunca quis isso. Para construir sua inocência disfarçada de imaturidade, eu tive que buscar em conhecidos essas características. E achei muitas pessoas para me ajudar. Confesso que Marcos foi concebido com um mix de características comportamentais – não de história, de uns sete conhecidos.

5. O livro retrata diversos tipos de relações amorosas, desde as mais convencionais, até as mais abertas, e ainda exemplifica e as entrelaça com a historia dos personagens. Como você vê esses tipos de relações?

Se fosse há uns 7 anos atrás, talvez minha resposta fosse mais conservadora e menos tolerante, mas aos 31 anos, eu vejo isso um pouco diferente. Tenho meu jeito de ser, de me relacionar e acredito no que vivo. Contudo, acho que cada um deve buscar a felicidade da forma que lhe satisfaz. Se você combina a regra do jogo com seu parceiro e ele aceita. Não sou eu que vou te julgar. O problema é quando isso não é claro e transparente.

6. Mentiras, traições e futilidades e o culto ao corpo perfeito. Tudo isso é levantado no decorrer da publicação. Em sua opinião o “mundo gay” tende a ter essas características?

Acredito que estamos vivendo uma grande mudança nos tempos. Nunca se falou tanto em gay como hoje. Estereótipos ainda são vistos, fáceis de identificar, alguns engraçados outros nem tanto. Não sou especialista no caso e nem tenho este papel, escrevi um livro apenas. Mas enquanto a superficialidade for a chave da porta, a porta será pintada de amarelo para chamar atenção. E o que tem dentro da casa, vale a pena?

7. “MSOT” tem a capacidade de levantar temas de profunda reflexão, de fazer sorrir, chorar e torcer pelo amor dos protagonistas. Essa sempre foi a sua intenção, levantar questionamentos entre os leitores?

Não tenho uma fórmula, a coisa saiu assim. Foram dois anos escrevendo, lendo, relendo, rabiscando, reemendando. Queria trazer através da minha imparcialidade o leitor para junto de mim, quis deixá-lo como se estivesse ouvindo uma história de um amigo. Hoje, quando ouço o efeito que isto causa nas pessoas, eu fico com os olhos cheios de água, porque eu consegui mexer com elas, provocar alguma reação. Quis ainda criar uma ponte do livro com a internet, para que os leitores se aproximassem mais, por isso criei um capítulo chamado Apêndice. Nele, coloquei as musicas que os personagens escutaram em cada momento chave, de onde vieram as idéias das ilustrações… Isso aproximará mais o leitor de MSOT.

8. Qual foi a parte mais complexa do livro que você teve de escrever?

Confesso que o livro todo foi muito complexo para mim. Criar algo que faça sentido e que na cabeça do leitor não confunda foi o maior desafio… Porém, escrever sobre os problemas psicologicos de Marcos e a separação deles, mexeu muito comigo enquanto pessoa. Tanto que hoje evito ler essa parte, pois fico um pouco triste e angustiado.

 

9. Como muitos se identificaram com o livro, seja pelas situações ou personagens, você teve alguma complicação com algum leitor?

Em princípio não. Tomei muito cuidado, para que ninguém levasse para o pessoal o que criei. Embora seja um livro com fatos que cada um poderia viver, alguns amigos até acharam que vivenciaram certas partes comigo e expliquei que algumas coisas apenas inspiraram e outras estavam prontas já. Mas tive um bom advogado me ajudando a zelar pela obra.

10. Os outros livros ainda focarão Marcos e Pedro? Ou darás destaque a um novo persongem?

Estou escrevendo o livro 2. Já tinha bastante material, cerca de 180 páginas. Em principio a história de Pedro e Marcos, terminaria no livro 1, mas acho que ainda pode render. Com isso, precisei alterar um pouco o meu roteiro, e já abro o livro 2 com o “Passado de Marcos – parte II”. Acredito que falar um pouco sobre o personagem, durante o enfoque de Pedro em MSOT, dará mais vida ao personagem, que confesso, não teve a devida expressão que merecia.

11. Você têm ideia da importância que tem para os diversos leitores do seu livro?

Confesso que ainda não. Mas como mantenho contato direto com os leitores que consigo achar e eles me contam suas experiências de leitura com suas famílias e amigos. Essa troca de emoções me emociona e me guia num caminho que acredito estar na trilha certa.

12. Que riscos os leitores terão ao embarcar nas páginas de “MSOT”?

Deles se reconhecerem em vários personagens e se sentirem como eles. Ainda que a cada página tudo muda, tudo acontece muito rápido. O primeiro volume narra praticamente seis anos de história. Pedro começa de um jeito e termina de outro, Marcos se transforma, amigos vão e vem. Quando você acha que tudo esta bem, aquilo muda e vira de pernas pro ar. Ironia ou não, a vida é assim também.

13. Que surpresas podemos ter ao ler “MSOT”?

Não posso revelar… risos 

14. Um mensagem final para os leitores.

Seria piegas se eu usar o slogam do livro? “Você consegue colocar a sua cabeça sobre o travesseiro e dormir sabendo de tudo o que fez?” – Brincadeira. Quero registrar para os leitores do blog, que quando lerem este trabalho, reflitam para onde estamos indo em nossas vidas. O tema principal do livro é a mentira que contamos para nós mesmos. Aquela mentira que faz com que não sejamos a pessoa que somos, que mentimos para ser aceito em algum grupo. Se inspirem em Pedro, que teve milhões de opções de desistir, mas persistiu e Marcos, que fascinado por escolhas, aprendeu a escolher certo com dignidade

2 respostas a Entrevista | Blog Só para mocinhos

  1. aexandre barbosa disse:

    Gostaria de saber, quando irá sair o 2 volume, ancioso para ler.

    Obrigado

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